Os vilões das arritmias ventriculares isoladas
Dr. Gabriel Chehab
CRM-RJ 52.108032-6 — Médico
Médico assistente do Serviço de Eletrofisiologia e Estimulação Cardíaca Artificial do Hospital Naval Marcílio Dias.
Enviado em 27 de julho de 2026
As extrassístoles ventriculares são batimentos que surgem antes da hora e podem ser percebidos como uma falha, uma pausa ou uma “batida forte” no peito. Embora muitas vezes sejam benignas, alguns hábitos podem aumentar sua frequência e intensidade.
Um dos principais suspeitos é a cafeína. O cuidado deve estar não apenas no café, mas na soma diária de café expresso, café coado, chá-preto, chá-verde, refrigerantes, energéticos, chocolates, pré-treinos e cápsulas estimulantes. Assim, algumas pessoas ultrapassam facilmente doses próximas ou superiores a 400 mg ao dia sem perceber.
Isso não significa que todo paciente com extrassístoles precise abandonar o café. O efeito é individual e depende da dose, da genética, da tolerância e da presença de cardiopatia. Entretanto, no estudo randomizado CRAVE, o consumo de café foi associado a aproximadamente 51% mais extrassístoles ventriculares diárias — 154 contra 102 — e a menor duração do sono. Uma declaração científica da American Heart Association publicada em 2026 também reconheceu que o café cafeinado pode aumentar a frequência das extrassístoles ventriculares em algumas pessoas.
Outros vilões importantes
- energéticos e pré-treinos, principalmente quando misturam cafeína, taurina e outros estimulantes;
- cigarro, vape e outras formas de nicotina;
- cocaína, anfetaminas e drogas estimulantes;
- excesso de álcool, especialmente grandes quantidades em pouco tempo;
- estresse, ansiedade e descargas intensas de adrenalina;
- privação de sono, plantões prolongados e apneia do sono;
- desidratação e perdas de potássio ou magnésio por suor excessivo, vômitos, diarreia, dietas muito restritivas ou uso inadequado de diuréticos e laxantes;
- exercícios excessivamente intensos, sobretudo sem condicionamento ou associados a estimulantes;
- sedentarismo, obesidade e pressão arterial mal controlada.
Energéticos merecem atenção especial: em um ensaio randomizado, uma bebida energética contendo 320 mg de cafeína produziu maior prolongamento do intervalo QT e elevação mais persistente da pressão arterial do que a mesma quantidade de cafeína isolada.
Tabagismo, baixa atividade física e pressão arterial elevada também estão associados a maior frequência de extrassístoles ventriculares na população.
Portanto, o melhor caminho não é simplesmente proibir tudo, mas identificar os gatilhos individuais. Um diário relacionando sintomas, horários, sono, alimentação, exercícios e consumo de estimulantes pode ajudar. A redução temporária da cafeína e dos demais gatilhos, acompanhada por avaliação clínica ou novo Holter, pode mostrar se existe uma relação verdadeira.
Extrassístoles acompanhadas de desmaio, dor no peito, falta de ar, piora durante o exercício, cardiopatia conhecida ou histórico familiar de morte súbita precisam de avaliação cardiológica. Nem toda arritmia ventricular isolada é causada pelo estilo de vida — e apenas retirar o café não substitui a investigação adequada.
Referências
- Marcus GM, et al. Acute Effects of Coffee Consumption on Health among Ambulatory Adults. New England Journal of Medicine. 2023;388:1092–1100.
- Marcus GM, et al. Caffeine and Cardiovascular Disease: A Scientific Statement From the American Heart Association. Circulation. 2026.
- Marcus GM. Evaluation and Management of Premature Ventricular Complexes. Circulation. 2020;141:1404–1418.
- Kerola T, et al. Modifiable Predictors of Ventricular Ectopy in the Community. Journal of the American Heart Association. 2018;7:e010078.
- Fletcher EA, et al. Randomized Controlled Trial of High-Volume Energy Drink Versus Caffeine Consumption on ECG and Hemodynamic Parameters. Journal of the American Heart Association. 2017;6:e004448.
- Zeppenfeld K, et al. 2022 ESC Guidelines for the Management of Patients With Ventricular Arrhythmias and the Prevention of Sudden Cardiac Death. European Heart Journal. 2022;43:3997–4126.
- Gorenek B, et al. Premature Ventricular Complexes: Diagnostic and Therapeutic Considerations in Clinical Practice. Journal of Interventional Cardiac Electrophysiology. 2020;57:5–26.
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